quinta-feira, 30 de outubro de 2025

30 de Outubro de 2025

Ontem, eu acordei com 61 anos. 

Quando me olhei no espelho, percebi uma ruga no canto externo do meu olho esquerdo que não existia antes, e um inchaço leve nos olhos, tipo uma pequena bolsa, comum a quem chora muito durante a noite. 

Eu não havia chorado. Pelo contrário, acordei aninhada e acariciada pelo meu marido. Feliz por ser bem-amada - um privilégio, eu sei. Era meu aniversário. 

A manhã se revelava plena e iluminada. Abri as janelas e, de repente, eu percebi que eu já não tinha motivo para reclamar do 422, que costuma atravessar a minha sala e meu quarto grunhindo um freio forçado diante do quebra-molas em frente à minha casa, e que sempre me faz pensar que eu moro num lugar sem paredes, no meio do asfalto e que esse ônibus estanca a velocidade, de repente, para não me atropelar de frente. 

Sempre sinto aquele barulho como um ruído de raiva, proposital, de quem não se conforma com o lembrete físico, cimentado, de que ali a velocidade precisa ser baixa, pouca, cuidadosa como cabe em ruas residenciais. 

Na minha fantasia, há um certo ódio naquela nota prolongada e metálica, como se o ônibus, feito instrumento cirúrgico, extensão do motorista, me dissesse: - Vou correr o máximo até o limite e, quando o calombo plantado na rua chegar, seus ouvidos doerão com o som cortante dos discos malconservados arranhados pelas pastilhas exaustas. 

O 422 não está passando como sempre. Paira um silêncio estranho como se até os passarinhos resolvessem se encolher. 

Sento no computador para trabalhar. Mas, antes, espio as redes que exibem, em notinhas que surgem no canto direito da minha tela, mensagens de pessoas que me querem bem: parabéns, aproveite seu dia, feliz novo ciclo, alegrias mil... 

E, em meio às felicitações, com toda dificuldade de encarnar um humor festivo, eu me vejo, em reflexo, arrastada inconteste por fotos, áudios, notícias, vídeos de um massacre planejado e executado no dia anterior. Sigo enredada em uma profusão de narrativas em tom de julgamento – algumas analíticas outras catárticas, todas sobre a dor. 

Volto ao espelho. A ruga recém-nascida na madrugada dos meus 61 permanece lá e eu inundada de tristeza. Naquela foto dos corpos enfileirados na rua, exibindo o que se faz nas favelas sem direito ao respeito ou vida digna, sinto muito. Eram meninos. 

E pouco me importam os textos desenhados e plantados por qualquer disputa política sobre o tratamento que deve ser dado aos bandidos ou não. Nunca houve interesse em socializar ou (re)ssocializar ninguém pobre neste país. A saúde e a educação públicas dão o tom da bastardia dos sem futuro. 

Quem conseguiu se sustentar desejante e realizar uns tantos projetos de vida sabe qual foi seu custo, próprio, particular. 

Eu só consigo ver meninos mortos, depois de serem encurralados, suas mães dilaceradas com esse rasgo na alma, no ventre, no coração. Eram seus meninos. Pretos, pardos – negros! Atravessados pelo vil metal em formato de projétil.

E quem ganha com isso nem aí ou aqui. Bem seguro de que seu lucro não será afetado e de que esta não será a última vez. 

Assim como testemunho, também faço parte de uma população assustada com a chacina, ao passo que o desgovernador diz que sua Contenção foi “exitosa”, aquinhoando a aprovação de pessoas que se alienam na ilusão da pena de morte salvacionista, que é proibida oficialmente no país, ou no apartheid disfarçado de túneis hipocritamente meritocráticos. 

Uma mãe diz aos berros dentro da delegacia, ao bater no filho que escapou do massacre: - Você não é vítima da sociedade. Você tem pai, tem mãe. Você escolheu essa vida. E eu não entendo bem o que ela diz. Mas, entendo o que a mídia quer ao circular uma mensagem dessa: justificar o injustificável. 

Lembro da entrevista de Judith Butler ao El País, em 2020, e suas perguntas tão cabíveis hoje e ainda: “em que circunstâncias é possível lamentar uma vida perdida? De quem são as vidas consideradas choráveis em nosso mundo público? Quais são essas vidas que, se perdidas, não serão consideradas em absoluto uma perda? É possível que algumas de nossas vidas sejam consideradas choráveis e outras não? Faço essas perguntas difíceis e perturbadoras porque eu, como vocês, me oponho à morte violenta; à morte por meio da violência humana; à morte resultante de ações humanas, institucionais ou políticas; à morte provocada por uma negligência sistêmica por parte dos estados ou por modos de governança internacionais”. Butler me faz ter mais vontade ainda de ouvir de perto a mãe desesperada.

O que será que essa mãe entende ser vítima? O que entende ser sociedade? O que atribui ao filho que tem pai e mãe? E, ainda, o que a faz pensar que a vida de crime é uma escolha? Não entendo, não sei, mas sinto sua revolta e impotência.

Alcanço a devastação diante de um rebento que poderia estar morto por um triz e está preso, por enquanto, sob a letra da lei. Sua raiva pelo filho não ter conseguido algo que ela supõe que ele poderia. Sua catástrofe. Bate no filho, grita com o filho que a despedaça. O acusa. Mas, comparece e vai providenciar advogado. Não lhe é indiferente. Diz a psicanálise de Lacan em seu Seminário I: “Se o amor aspira ao desenvolvimento do ser do outro, o ódio quer o contrário: sua degradação, seu desvio, seu delírio, sua negação detalhada, sua subversão. É nisso que o ódio como o amor é uma carreira sem limite”

“Você não é vítima da sociedade, tem pai e mãe...”. A frase ecoa na minha cabeça... 

Queria lhe falar, quem sabe, com um tantinho de diálogo, sobre o que as pessoas de dentro da universidade chamam de sociedade e onde localizam os que mandam e que devem obedecer – com ou sem a tal ética que deveria respeitar os viventes. Quem sabe lhe perguntar se ela imagina quem seria a mãe do bandido que coloca a droga dentro da favela. Essa que nunca precisará ir até uma delegacia porque o filho criminoso rico, que também “escolheu” o narcotráfico como suporte de vida – e é o patrão do filho preso ou morto-, está protegido pela “sociedade”, jamais sofrerá uma operação sob chuva de balas. Vive em algum prédio ou casa luxuosa na Zona Sul, em uma fazenda suntuosa ou mesmo fora do país, onde não se entra jamais fazendo “Contenção”. Aliás, bela invenção a da tornozeleira eletrônica para criminosos ricos, artefato que faz da pena de prisão um engodo. 

Lembro das cocaínas em aviões cujos responsáveis nunca foram executados. Não eram meninos. Como minha vó diria, eram gente graúda. 

Quantos e quais dos miúdos, têm a oportunidade de sonhar uma vida que não seja de sofrimento intenso e contínuo, do primeiro tiro ouvido, na chegada da maternidade, até o último estampido, ao se despedir do ciclo de sua existência? 

Quantas crianças e adolescentes gostam da vida que lhe foi permitida viver nas favelas? Quantas pessoas adultas e idosas podem dizer que vivem com tranquilidade em suas casas e terras? Estamos falando do risco real de morrer desde que se nasce, por ação ou reação policial, por omissão, negligência ou intenção do Estado. 

Matar nunca foi solução para nada em termos de segurança pública. Sabemos todos disso, mesmo que alguns se enganem por ignorância, cansaço ou medo. Caso contrário, tudo estaria resolvido, uma vez que a nossa polícia é a que mais mata. A necropolítica é reincidente e dura séculos aqui no BraZil. Mas, matar é uma moeda política porque ainda vivemos sob uma colonização psíquica de que o justiçamento tem efeito. 

Bruna da Silva, mãe de Marcos, um estudante adolescente de 14 anos morto pelo Estado no Complexo da Maré, em 2018, disse na época ao BBC News Brasil: “Só a gente sabe a dificuldade que é criar um adolescente aqui dentro sem ele virar traficante". Acusavam Marcos de ter envolvimento com o tráfico de drogas para justificar a execução e a postagem se espalhou por todo lado. Marcos, que chegou ainda vivo ao hospital disse: “- Mãe, o blindado atirou em mim. Eles não viram que eu estava de uniforme?”. E ela insistiu em enterrar seu filho como menino que era, não como traficante: "Não tive luto. Enterrei o Marcos e falei 'agora vamos combater esse fake news'. Uma mãe não pode ficar em casa vendo seu filho ser esculachado na internet. Graças a Deus eu limpei o nome dele”

Faz 48 horas que a “Contenção” aconteceu e helicópteros ainda sobrevoam meu bairro, que é distante do Complexo do Alemão, embora fique no subúrbio. Para viver no Rio de Janeiro, precisamos fingir todos os dias que não estamos em guerra. Alguns conseguem melhor – os da beira da praia – outros nascem, crescem e morrem num extenso estado de alerta dentro do espectro de risco. 

Somos todas, todes e todos vítimas da sociedade, essa neoliberal que, para manter o maior lucro possível, nos explora de todas as formas – das mais insidiosas às mais explícitas, além de tornar abjetos, matáveis, os que não rendem o esperado. 

O 422 já circula violento novamente, como se quisesse antecipar logo a virada desse capítulo. Eu volto a me olhar e localizo de onde veio minha nova ruga e meus olhos inchados: desse espelho rachado, onde qualquer fio de humanidade não consegue se reconhecer. Desse mal-estar intenso, estado dolorido e silenciado de luto. 

Claudia Fonseca Santamarina 

Rio de Janeiro, 30 de outubro de 2025

domingo, 20 de agosto de 2017




Custei a entender ao que se referia a expressão o Águia. De cara, pensei que Águia era nome de algum bandido. Errei, mas não por muito. O Águia era o helicóptero que sobrevoava a favela do Jacarezinho mandando rajadas de tiros para baixo, atingindo pessoas, casas, moradores desesperados, apesar de familiarizados com o cotidiano de guerra. Como ninguém tem licença para atirar na população à esmo e tão pouco para matar, o Águia era a encarnação do mal, com suas próprias leis, à caça.

O filho da primeira mulher que aparece conhece o Águia com a intimidade de quem sabe o tamanho que esse mal pode fazer e faz, quando assim o poder do asfalto decide. Ele me ensina, descartando grandes teorizações, que todo conhecimento é situado, como recomenda academicamente a filósofa americana Donna Haraway. De nada adianta (mesmo!) para a população sem privilégios todos os aparatos de objetividade técnica ou científica descorporificada. E eu me pergunto, mais uma vez, para o que serve o meu saber, intitulado como PhD. Em cada bairro, seus moradores sabem bem o que devem fazer para sobreviver. Talvez pudessem construir saídas, se fossem ouvidos, mas o que lhes resta são armários e becos sob a expressiva tensão de que sua tentativa de sobrevivência possa significar algum tipo de confissão passível de pena de morte.

O fato é que mesmo depois de entender objetivamente o que é o Águia: Uma arma voadora exploratória com poder de matar; mesmo podendo imaginar o que são rajadas de tiro sobre as cabeças dos moradores: Um inferno de estar ameaçado de morte sem muitas saídas; eu, definitivamente, não tenho ideia do que possa ser estar permanente no lugar de alvo. Me empatizo com o terror e tenho vontade de gritar junto por paz.

No lugar de alvo, o filho e o neto da mulher exaperada, buscaram com a mãe alguma explicação mais razoável para o ataque terrorista da PM. Infelizmente, não era o fim do mundo - de todo o mundo-, mas pressentidamente um fim do mundo particular no Jacarezinho, que a impelia a gritar por paz. Uma paz que ela sabe existir, por exemplo, na esquina da Delfim Moreira com Aristides Espíndola, onde moram bandidos de alto poder de malefício público, protegidos por algum direito civil que a ela e aos seus filhos é negado.

A realidade dos bairros pobres do Rio de Janeiro, é que, de fato, todos precisam tentar escapar desse lugar de alvo. Diariamente. Essa compreensão terrível de que as balas são seguramente dirigidas a todos os que transitem pela linha de fogo estabelecida pelos donos das armas - oficiais ou piratas - é a face menos discutida na disputa cotidiana por poder e comando do território. Desde Brizola, que em seu primeiro governo, no início da década de 80 do século passado, proibiu a polícia de fazer operações nos morros que causavam mais sofrimento aos moradores do que aos traficantes, nunca mais ouvi essa pauta por parte dos governantes. Garantir a vida e a segurança dos moradores foi transformado pela elite em aliança com o tráfico. E assim sendo, vigora a diatribe: Quem mandou nascer pobre?

A pergunta subsequente do vídeo volta-se para o externo à favela, que sem dúvida a alimenta como território de exclusão social: - Quando vão prender os bandidos da Lava-Jato? A pergunta dolorida e genérica apela para o tal querer ser igual diante da lei e da justiça humana - sujeito de direitos.

Há bandidos fora da favela. Muitos. Os maiores em poder de destruição e prejuízo social, mas é impensável que o Águia dispare suas rajadas de tiro em busca da Ancelmo ou do Cabral. Os filhos e netos dos moradores do posto 10 estão fora da mira do Águia. Talvez nem o conheçam, como eu não conhecia. Em seu horizonte, reina o mar azul e a paz desejada pela moradora do Jacarezinho. Uma paz abalada somente pela circulação indesejada de pivetes e por alguns arrastões. Os helicópteros que sobrevoam suas cabeças estão à serviço de passeios turísticos, transporte dos muito ricos ou para salvamento de banhistas.

Outra mulher indignada pergunta se os moradores tem culpa se mataram um policial civil, enquanto uma jovem desfila a lista recente dos atingidos pela barbárie. Na guerra entre policiais e traficantes, patrocinadas por criminosos inimputáveis de alto escalão, moradores são contabilizados como uma espécie de figuração sem alma. Desumanizados e desconectados de qualquer relação com o R-66 - helicóptero dos Perrella, que transportava 445 quilos de cocaína e que ninguém ainda descobriu de quem, ou com o avião que decolou da fazenda do Ministro Blairo Maggi com 662 quilos de cocaína, os pobres formam uma massa de nenhum valor. O paradigma de ação bélica nas favelas não muda e com ele, o regime de desumanização e extermínio, prevalece. Não é pessoal, é tático. O sistema modelar de evangelização dos pobres garante, por via, os votos necessários para que se mantenha o status quo soberano e sua consequente subjugação alienante ao poder divino e aos seus representantes terrenos. Tão pouco é pessoal, é estratégico. Não é à toa que facções criminosas da favela e do asfalto, referendam suas ações ao poder de seu Deus, seja em pichações ou retóricas políticas.

"Se a comunidade não se unir, vai morrer um por um", vaticina um homem convocando a resistência coletiva contra os que "estão achando que são Deus". No entanto, ao mesmo tempo em que a mobilização aponta para a assunção de respostas sociais comunitárias à violência, entra em cena o outro comando apaziguador, que faz recuar e deposita o protagonismo da vitória contra o mal no além: As mãos de Deus.

O coro do final do vídeo mostra o aparente deslocamento de posição, que os mantém na mesma: alvo dos Senhores. Ao entoarem a Raridade do cantor gospel capixaba Anderson Freire - ganhador de um Grammy Latino, em 2016 - que eu também não conhecia, trazem para a cena um suposto re-vigor de saírem da posição de alvos de metralhadoras para alvos de Deus. Se fortalecem na ideia de serem "o espelho da imagem que reflete o Senhor". Entendem que é preciso descartar o choro, "se o mundo ainda não notou". Pois, "já é o bastante Deus reconhecer o seu valor". Afinal, em algum lugar divino, fora do inferno cotidiano, cada um é "precioso, mais raro que o ouro puro de Ofir". Se alguém esmorecer, é preciso saber que "Deus não vai desistir. Ele está aqui pra te levantar se o mundo te fizer cair".

A indignação moral, que poderia alavancar alguma mudança social, é rapidamente solapada pela promessa de justiça divina, retornando ao círculo infernal-celeste do poder do outro-externo-supremo. E, de novo, de novo e de novo, instala-se a reprodução social do algoz e da vítima, alienando a potência de decidir por outra posição que não seja de "escolhido" por Deus ou pela fatalidade. E é assim que, como diz o velho ditado árabe, os cães ladram, a caravana passa e a fé não move as montanhas do fascismo. Já já, o ataque terrorista do Jacarezinho será esquecido até a próxima revanche.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Aos 22 de abril

Pedro descobriu o Brasil.
Eu descobri o Ricardo.
Ele redescobriu o amor.
E nós estamos nus de felicidade.



sábado, 26 de novembro de 2011

Lá vem o Natal

Tinha desistido.
Mas, Maria Luiza não se conformou. 
Me deu um pinheirinho de Natal.
Lá fui eu de novo enfeitar a árvore, 
feita de verde e afeto, 
que perfuma minha alma todos os dias.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O sino e a alegria

Uma época morei numa casa e coloquei um sino no lugar de uma campainha.
Meus filhos tinham vergonha. Queriam uma campainha moderna, do tipo blim blom.
Eu achava uma curtição. Cada vez que uma criança sacudia o cordão do sino do lado de fora, as badaladas enchiam meu coração de alegria!