domingo, 20 de agosto de 2017




Custei a entender ao que se referia a expressão o Águia. De cara, pensei que Águia era nome de algum bandido. Errei, mas não por muito. O Águia era o helicóptero que sobrevoava a favela do Jacarezinho mandando rajadas de tiros para baixo, atingindo pessoas, casas, moradores desesperados, apesar de familiarizados com o cotidiano de guerra. Como ninguém tem licença para atirar na população à esmo e tão pouco para matar, o Águia era a encarnação do mal, com suas próprias leis, à caça.

O filho da primeira mulher que aparece conhece o Águia com a intimidade de quem sabe o tamanho que esse mal pode fazer e faz, quando assim o poder do asfalto decide. Ele me ensina, descartando grandes teorizações, que todo conhecimento é situado, como recomenda academicamente a filósofa americana Donna Haraway. De nada adianta (mesmo!) para a população sem privilégios todos os aparatos de objetividade técnica ou científica descorporificada. E eu me pergunto, mais uma vez, para o que serve o meu saber, intitulado como PhD. Em cada bairro, seus moradores sabem bem o que devem fazer para sobreviver. Talvez pudessem construir saídas, se fossem ouvidos, mas o que lhes resta são armários e becos sob a expressiva tensão de que sua tentativa de sobrevivência possa significar algum tipo de confissão passível de pena de morte.

O fato é que mesmo depois de entender objetivamente o que é o Águia: Uma arma voadora exploratória com poder de matar; mesmo podendo imaginar o que são rajadas de tiro sobre as cabeças dos moradores: Um inferno de estar ameaçado de morte sem muitas saídas; eu, definitivamente, não tenho ideia do que possa ser estar permanente no lugar de alvo. Me empatizo com o terror e tenho vontade de gritar junto por paz.

No lugar de alvo, o filho e o neto da mulher exaperada, buscaram com a mãe alguma explicação mais razoável para o ataque terrorista da PM. Infelizmente, não era o fim do mundo - de todo o mundo-, mas pressentidamente um fim do mundo particular no Jacarezinho, que a impelia a gritar por paz. Uma paz que ela sabe existir, por exemplo, na esquina da Delfim Moreira com Aristides Espíndola, onde moram bandidos de alto poder de malefício público, protegidos por algum direito civil que a ela e aos seus filhos é negado.

A realidade dos bairros pobres do Rio de Janeiro, é que, de fato, todos precisam tentar escapar desse lugar de alvo. Diariamente. Essa compreensão terrível de que as balas são seguramente dirigidas a todos os que transitem pela linha de fogo estabelecida pelos donos das armas - oficiais ou piratas - é a face menos discutida na disputa cotidiana por poder e comando do território. Desde Brizola, que em seu primeiro governo, no início da década de 80 do século passado, proibiu a polícia de fazer operações nos morros que causavam mais sofrimento aos moradores do que aos traficantes, nunca mais ouvi essa pauta por parte dos governantes. Garantir a vida e a segurança dos moradores foi transformado pela elite em aliança com o tráfico. E assim sendo, vigora a diatribe: Quem mandou nascer pobre?

A pergunta subsequente do vídeo volta-se para o externo à favela, que sem dúvida a alimenta como território de exclusão social: - Quando vão prender os bandidos da Lava-Jato? A pergunta dolorida e genérica apela para o tal querer ser igual diante da lei e da justiça humana - sujeito de direitos.

Há bandidos fora da favela. Muitos. Os maiores em poder de destruição e prejuízo social, mas é impensável que o Águia dispare suas rajadas de tiro em busca da Ancelmo ou do Cabral. Os filhos e netos dos moradores do posto 10 estão fora da mira do Águia. Talvez nem o conheçam, como eu não conhecia. Em seu horizonte, reina o mar azul e a paz desejada pela moradora do Jacarezinho. Uma paz abalada somente pela circulação indesejada de pivetes e por alguns arrastões. Os helicópteros que sobrevoam suas cabeças estão à serviço de passeios turísticos, transporte dos muito ricos ou para salvamento de banhistas.

Outra mulher indignada pergunta se os moradores tem culpa se mataram um policial civil, enquanto uma jovem desfila a lista recente dos atingidos pela barbárie. Na guerra entre policiais e traficantes, patrocinadas por criminosos inimputáveis de alto escalão, moradores são contabilizados como uma espécie de figuração sem alma. Desumanizados e desconectados de qualquer relação com o R-66 - helicóptero dos Perrella, que transportava 445 quilos de cocaína e que ninguém ainda descobriu de quem, ou com o avião que decolou da fazenda do Ministro Blairo Maggi com 662 quilos de cocaína, os pobres formam uma massa de nenhum valor. O paradigma de ação bélica nas favelas não muda e com ele, o regime de desumanização e extermínio, prevalece. Não é pessoal, é tático. O sistema modelar de evangelização dos pobres garante, por via, os votos necessários para que se mantenha o status quo soberano e sua consequente subjugação alienante ao poder divino e aos seus representantes terrenos. Tão pouco é pessoal, é estratégico. Não é à toa que facções criminosas da favela e do asfalto, referendam suas ações ao poder de seu Deus, seja em pichações ou retóricas políticas.

"Se a comunidade não se unir, vai morrer um por um", vaticina um homem convocando a resistência coletiva contra os que "estão achando que são Deus". No entanto, ao mesmo tempo em que a mobilização aponta para a assunção de respostas sociais comunitárias à violência, entra em cena o outro comando apaziguador, que faz recuar e deposita o protagonismo da vitória contra o mal no além: As mãos de Deus.

O coro do final do vídeo mostra o aparente deslocamento de posição, que os mantém na mesma: alvo dos Senhores. Ao entoarem a Raridade do cantor gospel capixaba Anderson Freire - ganhador de um Grammy Latino, em 2016 - que eu também não conhecia, trazem para a cena um suposto re-vigor de saírem da posição de alvos de metralhadoras para alvos de Deus. Se fortalecem na ideia de serem "o espelho da imagem que reflete o Senhor". Entendem que é preciso descartar o choro, "se o mundo ainda não notou". Pois, "já é o bastante Deus reconhecer o seu valor". Afinal, em algum lugar divino, fora do inferno cotidiano, cada um é "precioso, mais raro que o ouro puro de Ofir". Se alguém esmorecer, é preciso saber que "Deus não vai desistir. Ele está aqui pra te levantar se o mundo te fizer cair".

A indignação moral, que poderia alavancar alguma mudança social, é rapidamente solapada pela promessa de justiça divina, retornando ao círculo infernal-celeste do poder do outro-externo-supremo. E, de novo, de novo e de novo, instala-se a reprodução social do algoz e da vítima, alienando a potência de decidir por outra posição que não seja de "escolhido" por Deus ou pela fatalidade. E é assim que, como diz o velho ditado árabe, os cães ladram, a caravana passa e a fé não move as montanhas do fascismo. Já já, o ataque terrorista do Jacarezinho será esquecido até a próxima revanche.